Campinas registra aumento de denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes em 2020

Coordenadora da Rede Iluminar pondera que número deve ser ainda maior, já que quarentena para enfrentamento do novo coronavírus pode gerar subnotificação.

As denúncias de abuso sexual contra crianças e adolescentes em Campinas (SP) cresceram 58,7% no primeiro quadrimestre deste ano em comparação ao mesmo período de 2019.

Os dados do Sistema de Notificação de Violência (Sisnov) indicam 100 denúncias dessa violência contra pessoas de 0 a 18 anos entre janeiro e abril, enquanto em 2019 foram 63 ocorrências.

Apesar do crescimento nas notificações, a médica sanitarista Mirella Moraes, que também é coordenadora da Rede Iluminar, órgão da Secretaria Municipal de Saúde responsável por cuidar de vítimas de violência sexual, aponta que a diferença se deve ao melhoramento da equipe que administra as notificações.

Mirella alerta que, devido o isolamento social por conta do novo coronavírus, o número real de casos deve ser maior do que o registrado, já que as vítimas de violência podem estar em quarentena com os próprio agressores, muitas vezes membros da família, o que dificulta a denúncia.

Segundo o Ministério da Saúde, 69,2% dos casos de violência sexual contra crianças de 0 a 11 anos e 58,2% dos casos de adolescentes, de 12 a 18 anos, ocorrem na residência da vítima.

Suspensão das aulas dificulta denúncia Como a maioria dos casos ocorre na residência da vítima e muitos têm como agressores algum membro da família, é em outros ambientes que as vítimas podem denunciar a violência.

O conselheiro tutelar de Campinas Luiz André da Silva Neto explicou que, nesse momento de quarentena, o contato com professores, por exemplo, ficou mais distante e isso pode gerar uma subnotificação dos casos.

“Para aqueles casos em que a violência ocorre no seio familiar, é evidente que há um risco maior por conta da exposição e também a falta do contato de outros setores que podem identificar o comportamento que seja indicativo de violência, por exemplo, a escola, ou até mesmo a rotina no centro de saúde.”, disse Luiz.

O próprio Conselho Tutelar registrou queda nas denúncias de maus-tratos ou violência contra crianças e adolescentes durante a quarentena.

Enquanto em março deste ano foram 100 denúncias, no mês seguinte o número caiu para 48.

Consequências da violência Entre as consequências do abuso sexual estão questões de sexualidade saudável e autoconfiança.

“Como, na maioria das vezes, o agressor é alguém de confiança da criança, a noção do que é amor e segurança fica distorcia para ela.

Então a criança vai desenvolver relacionamentos afetivos prejudicados no futuro.

É uma criança que se sente insegura no mundo.

É uma criança que vai virar um adulto com problemas de socialização às vezes.”, afirmou Mirella. Segundo o conselheiro tutelar, a educação sexual contribui para evitar abusos na infância.

Ele ressalta que a orientação faz a criança entender sobre o cuidado e a liberdade que deve ter com corpo.

A coordenadora da Rede Iluminar também reforçou a ideia.

“Eu acho que uma das melhores formas de prevenir a violência sexual na infância é a educação sexual, é ensinar as crianças sobre o seu próprio corpo e o que é permitido e não é permitido de avanço no seu próprio corpo.

Quanto mais essa criança entende as barreiras do que pode e do que não pode, mais segura ela fica de entender que isso”, diz a médica sanitarista.

Educação Sexual Apesar de a educação sexual ser considerada como uma das medidas mais efetivas para a prevenção do abuso de crianças e adolescentes, ainda existe a dificuldade de responsáveis e as escolas abordarem o assunto, segundo a psicóloga e sexóloga Bárbara Menêses.

“Eu dou muita palestra nas escolas de Campinas sobre sexualidade infantil e o que eu percebo tanto dos professores quanto dos pais é que eles têm uma dificuldade imensa de falar sobre sexualidade, de entender que a criança tem sexualidade e que isso não tem nada a ver com criança fazer sexo, muito pelo contrário.”, declarou a sexóloga.

Bárbara comentou sobre o medo dos responsáveis em tratar o assunto e isso se tornar um incentivo ao início da vida sexual e explicou que informar sobre o tema gera o efeito contrário, podendo prevenir gravidez na adolescência e abusos.

Além disso, ela enalteceu a necessidade de abordar o tema violência sexual de uma forma neutra e científica, sem envolver questões religiosas, mitos e tabus.

A psicóloga também ressaltou a importância da conscientização dos adultos que, muitas vezes, se sentem no direito sobre os corpos de crianças ou adolescentes que vivem no mesmo ambiente.

“Os adultos também precisam ser conscientizados, porque muitos deles de fato não têm essa consciência, acham que, de fato, é só um carinho, um desejo, e que não tem nada de errado com isso.”, afirmou Bárbara Menêses. Sistema de denúncias O Sistema de Notificação de Violência (SISNOV) trabalha em conjunto com a Secretaria de Educação, Assistência Social, Saúde e Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública que auxiliam no registro de casos de abuso sexual infantil conforme são feitas as denúncias.

“Não é um boletim de ocorrência, é um sistema de notificações que vai gerar essa informação, mas é uma informação completa por ser informado por várias secretarias.

Muitas vezes é um dado que supera o da delegacia.”, informou Mirella Moraes.

A recomendação, para os responsáveis, nesse momento de quarentena, é procurar ajuda caso perceba qualquer mudança de comportamento da criança.

Se a própria vitima relatar alguma situação de violação, é preciso acreditar e fazer a denúncia pelo Disque 100.

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