O impeachment no campo de Trump

Desfecho no Senado é favorável a presidente, mas a forma como ele influenciará o julgamento delineará o resto de seu mandato e as chances de reeleição.

Apoiadora do presidente Donald Trump exibe cartaz contra o impeachment, em frente ao Capitólio, em Washington, em dezembro de 2019 Win McNamee/Getty Images/AFP O palco do impeachment do presidente Donald Trump será transferido para o Senado americano a partir desta quarta-feira (15), depois que a Câmara votar o envio dos dois artigos aprovados em dezembro -- abuso de poder e obstrução de Justiça.

O desfecho do julgamento está praticamente certo: o processo se encerra no Senado, onde a maioria republicana livrará o presidente das acusações.

Mas, até o ato final desse espetáculo, haverá percalços, crises e suspense.

As dúvidas ficam por conta do tempo que o processo levará para se desenrolar e da influência que Trump exercerá para impor procedimentos e convocar testemunhas.

Quanto a isso, os republicanos se dividem.

Aliados fiéis ao presidente querem agilizar este segundo ato e torná-lo rapidamente improcedente, com a escolha de testemunhas favoráveis a Trump.

Republicanos moderados, por outro lado, entre eles o ex-candidato à Presidência Mitt Romney, defendem um julgamento sem pressa e se mostram abertos à convocação de testemunhas-chave e de alto escalão.

Uma delas seria John Bolton, ex-conselheiro de Segurança Nacional, crítico das manobras de Rudolph Giuliani, advogado do presidente, para que o governo ucraniano investigasse o filho do pré-candidato democrata Joe Biden.

Pressionado entre o presidente e as duas alas do partido, o líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, tenta manter o controle da bancada.

Não pode se dar ao luxo de perder três senadores nas votações que exigem maioria simples.

Aparentemente ele está ditando as regras do jogo, na medida que recusou-se a ceder e a divulgar procedimentos e normas do julgamento, deixando a reboque a presidente da Câmara, Nancy Pelosi.

Sem alternativa, ela foi obrigada a antecipar a votação dos dois artigos para esta quarta-feira (15), quando serão nomeados também os congressistas democratas que servirão de promotores no julgamento do Senado.

A votação dos dois artigos do impeachment será separada.

Vale lembrar que os 100 senadores atuarão, ao mesmo tempo, como jurados e juízes.

Para remover o presidente do cargo, os democratas necessitariam de dois terços dos votos, o que equivale à deserção de 20 republicanos para o seu campo. Esta margem folgada, por si só, daria a Trump a tranquilidade necessária para que não precisasse orquestrar o julgamento, dificultando a divulgação de documentos e a convocação de testemunhas, como vem fazendo.

“Se o presidente está tão confiante de que não fez nada errado, por que se recusa a deixar que essas autoridades testemunhem ou entreguem documentos importantes? E se McConnell está tão confiante, por que lutar tanto para impedir que toda a verdade apareça?”, questionou o “The New York Times” em editorial.

Tanto Trump quanto o líder republicano estão conscientes de que há muito em jogo.

Sabem que a reação do público americano às revelações do julgamento delineará o fim do mandato, as chances de reeleição e até a composição de um novo Senado em novembro.

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